Depois de quase um ano sem escrever nada aqui, estou de volta. Em muitos sentidos. Voltei a morar em Porto Alegre e a procurar emprego. Mas não sou mais a mesma pessoa. Conheci gente e lugares diferentes, trabalhei em assessoria – o que mudou minha mente sobre este ramo -, comprei uma moto e dirigi ela muito naquele trânsito caótico de São Paulo. Convivi muito com meu pai, o que eu não fazia desde os 12 anos de idade. Enfim, mudei. Mas uma coisa não mudou. Estresse.
A última fase da minha vida onde não tive estresse foi na infância. Verão em Tramandaí. O ritual era o mesmo. Acordar cedo e ir para a praia. Comer milho, picolé, tomar refrigerante e brincar com os primos. Aí voltava perto do meio dia, e ia tomar banho enquanto minha avó fazia batata frita, bife, arroz e feijão. Depois sentava, de sunga limpa, ao sol. A lajota laranja pelando dava uma sensação tão boa de relaxamento que eu chegava a me arrepiar. Mas tinha a sobremesa. Se tu acha que já comeu torta de bolacha boa, é porque ainda não provou a da minha avó. E eu ficava comendo enquanto esperava a Kombi que passava com o megafone anunciando: “rapadurinha de leite, puxa-puxa, balas quebra-queixo, balas de coco, pé-de-moleque, melado, açúcar mascavo, caninha de Santo Antônio da Patrulha.” Era o aviso para eu levantar e ir comprar puxa-puxa.
Preocupação, nenhuma. Não me interessava se a bolsa ia cair ou subir, se o Brasil tinha um PIB maior que sei lá quem, ou o que eu ia ser quando crescer. Pensava, sim, e muito. Astronauta, piloto de moto, cantor, jogador do Inter e da Seleção, herói de guerra, justiceiro, ninja. Mas não me preocupava. Dinheiro, para mim, caía do céu porque eu não trabalhava e ganhava mesada.
Quando esta fase acabou, começou o estresse. Era a guria que eu queria namorar e não me dava bola, eram as provas que ficavam cada vez mais difíceis, o vestibular, estágio, trabalho e por aí vai. Acho que talvez seja isso que diferencie os adultos das crianças: o nível de estresse. E o pior é que não tem remédio para isso. É questão de conseguir suportar a pressão. Só espero que eu consiga fazer com que meus filhos, quando chegarem, tenham o prazer de se sentar ao sol comendo puxa-puxa e divagando sobre o que podem ser quando crescerem, enquanto eu trabalho como um animal para garantir isso a eles. E posso assegurar que nada nesse mundo me faria mais feliz.