Entre mim e o Capitão Nascimento

2005. Eu tinha retornado ao Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, depois de 13 anos. Nasci lá, o que explica a minha malandragem e meu jeito de ver e levar a vida. Mas estava lá, com os olhos marejados, depois de ter deixado cair algumas lágrimas, andando de taxi em frente à Baía de Guanabara. Resolvi puxar um papo com o taxista e entre as conversas, acabamos falando sobre a violência.

- Que bom que o Beira-mar está na cadeia, né? – eu disse

- Pois é… realmente é ótimo – respondeu .  Mas eu vou te dizer uma coisa que ninguém na tevê fala: as pessoas acham que o Beira-mar é o chefão. Não é. Tem gente acima dele. E tem outros mais acima ainda. Mas nesses ninguém pode botar a mão, são muito importantes e muito poderosos. Então pegam um para ser o vilão. Mas o Beira-mar é o terceiro ou quarto, talvez até o quinto, de cima para baixo.

Falamos sobre outras coisas e acabei deixando essa história de lado. Mas esse diálogo me voltou à cabeça ontem, quando assisti ao tão falado e, diga de passagem, fantástico Tropa de Elite 2. Não vou contar o filme, porque não sou estraga prazer. Mas quem assistiu vai entender o que me disse o taxista. Ele sabia do que estava falando. “Gente poderosa, que ninguém põe a mão”. Mas ele se enganou em apenas uma coisa: ele não conhecia o Capitão Nascimento.

Capitão Nascimento vive dentro de cada um de nós, uma espécie de alter ego. Aquela parte que quer fazer justiça, matar os bandidos, pegar uma arma e sair eliminando da Terra essas figuras que, nós sabemos, não deveriam ter nascido. Mas não podemos. Temos que ser racionais, flexíveis e, acima de tudo, não temos uma arma.

Mas lá estava eu, sentado, olho no filme e mão na pipoca. Eu disse PIPOCA. Quieto, atento. Esperei muito tempo para ver o filme. Em uma cena onde o Capitão Nascimento descarrega toda sua fúria no rosto de um figurão, senti as pessoas se mexendo em suas cadeiras, inquietas, sem respirar. Alguns, até com sorriso de satisfação no rosto. Imagino que, assim como eu, queriam levantar e também meter a porrada naquele desgraçado. Sim. O Nascimento estava fazendo justiça por nós.

O filme mexeu comigo de tal forma que me segurei muito para não sair dali e comprar um fuzil e uma passagem para Brasília, só de ida. Mas não sou o Capitão Nascimento. Sou só um produtor e editor do Canal Rural, que acorda às 3:30 da manhã, todo dia, para estar sentado em frente a um computador às 5.

Como já disse em outro post, quando criança, queria ser policial, justiceiro. Na verdade, acho que o que eu queria mesmo era ser Capitão Nascimento. Que Romário o quê! Que Lula o quê! Capitão Nascimento, você é o cara. Até hoje, às vezes, me bate a vontade de virar policial. Largar tudo, fazer concurso, dar tiro em bandido, entrar para o BOE – a versão gaúcha do Bope -, lutar contra o sistema. Talvez por isso Deus tenha me feito grande, alto e forte. Ok, a gordura foi culpa minha. E até nisso eu vejo um pouco do Capitão Nascimento em mim, porque botei na minha cabeça a missão de emagrecer. “E missão dada, parceiro, é missão cumprida”. Bom… cada um com suas batalhas. Afinal, se eu virasse policial, como os produtores rurais ficariam bem informados?

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